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Por Ana Paula Kwitko
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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Noite e neblina de Alain Resnais


Gênio é gênio! Aí está um dos primeiros trabalhos do diretor Alain Renais, um filme documentário que é um verdadeiro soco na boca do estômago. Imagens asfixiantes que não necessitam de voz para serem entendidas e dispensam legendas para serem traduzidas. Imagens que nos fazem pensar para além da superfície normativa de “verdade”. Imagens articuladas por um mestre e que nos permitem aprofundar a realidade que ainda hoje assombra muitos corações. 


Merci Maître!





sábado, 14 de julho de 2012

CINE, DEVANEIOS E DELÍCIAS

               GAZPACHO E UMA GAÚCHA À BEIRA DE UM ATAQUE DE RISOS

Para além deste pedacinho da Península Ibérica, o cinema espanhol vem sendo representado há alguns pares de anos por Pedro Almodóvar. Polêmico, intenso em suas narrativas e vibrante nas suas imagens, o diretor possui uma estética que conta a história de um artista múltiplo, com gosto acentuado pela provocação e habilidade ímpar para contar do mundo feminino.
Mas meu pequeno "novo" país possui outros representantes tão ilustres quanto o cineasta manchego e o Gazpacho é um deles. Talvez bastante conhecido como, mas certamente "menos provado", esta sopa fria é uma delícia e uma iguaria muito simples de preparar. De origem Andaluz, está presente em todo menu da Espanha e é personagem importante do filme Mujeres al borde de un ataque de nervios, do Pedro (o Almodóvar, claro!).
Na obra de 1987 - que levou o cineasta ao reconhecimento "Oscarizável" -, a personagem Pepa, vivida por Carmen Maura, prepara o prato preferido de seu amante Ivan e nele coloca sonífero, levando muitos desavisados a nocaute. No entanto, o Gazpacho, sem esta intervenção de Pepa, é refrescante, leve e imperdível, assim como o filme.

Aí vai a minha receita, existem muitas. A quantidade dos ingredientes, o leitor define para o próximo mês. Explico: como estamos em julho, fica agosto, mas vale dizer que sempre o tomate em maior número.

Tomates (sem casca)
Pepinos (sem casca)
Cebolas ( tb aconselhável sem casca)
Pimentão
Alho (não coloque muito, pois teve uma vez que exagerei e nos deu uma baita azia)
Água

Modo de preparo:

Coloca tudo no liquidificador, bate e leva para geladeira. Na hora de servir acrescenta sal, pimenta moída, vinagre de vinho e azeite de oliva. 





terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cinecidade - Melancholia



Assistir o último filme de Lars Von Trier, Melancholia, foi, pelo menos para mim, desconfortável do princípio ao fim. O diretor apresenta um tema nada fácil de digerir e faz com maestria sua transloucada arte ao tratar da solidão. É um filme tão asfixiante quanto lúcido, tão cru, quanto profundo, capaz de gerar uma discussão que caminha do dramático para o filosófico num lampejar de angústia. Dividido em duas partes, narra primeiro a vida da triste Justine (Kirsten Dunst, de Maria Antonieta) durante sua interminável festa de casamento. Coberta com enfadonho vestido de noiva, a personagem vai revelando aos poucos a verdade infeliz que nos assola, “estamos sós”, e nada nem ninguém pode nos salvar disto. Tal como uma profetisa, anuncia o triste e cruel fardo humano arrastando um longo véu que parece pesar tanto quanto seus pensamentos sombrios. Justine sabe que as pessoas na Terra são más e este é o cerne de toda sua dor. Neste filme, Von Trier não só debocha da realidade, ele a desafia e inquieta o público com imagens perturbadoras e uma luz incrível. Em certas cenas apocalípticas, tive a nítida impressão que buscou inspiração no meu pintor preferido (preciso investigar isto), Hieronymus Bosch, tamanha explosão de sentimentos que desperta.
Na segunda parte, se conhece melhor Claire (Charlotte Gainsbourg, que fez A árvore), a irmã controladora, “ajustada” e “bem resolvida” de Justine que aos poucos vai se revelando frágil e infantil. É quando o diretor brinca com a inevitabilidade do fim, o planeta Melancholia vai se chocar com a Terra explodindo as mais antigas convicções de redenção e felicidade da raça humana. Não haverá vida depois da vida conforme pregou a religião e o medo. Não haverá nada além do nada, prenuncia Von Trier.
Hoje, ainda sob efeito do filme, tento ver com menos opacidade esta “prisão perpétua” que é a vida e que a Márcia Tiburi tão bem definiu no último Vinho Filosófico que organizei. Nosso mundo é imoral e a liberdade tem controle, é proibido falar mal de judeu (dizem os defensores maníacos pelo "politicamente correto"), mas permitido roubar a infância (como fazem os religiosos que empunham armas em nome de Deus). E este talvez seja o pior cárcere que nos condenou nossa sociedade perversa e covarde.
Enquanto preencho minha agenda com os rituais pueris de cada dia, fico pensando se de fato a melancolia é uma doença, ou uma saída para almas desavisadas e imaturas como a minha.

http://www.reservacultural.com.br/detalhe_filme.asp?id=4&filme=39

terça-feira, 5 de julho de 2011

CINE RETRÔ - Volver de Pedro Amodóvar

Para aquecer estas noites geladas, a melhor pedida é assistir um bom filme embaixo das cobertas. O frio nos ajuda validar a preguiça, acaba com nossa culpa.  E minha sugestão não poderia ser melhor do que Volver.

Em 2006, foi lançado Volver, um filme que deu luz essencialmente a mulheres humildes, valentes e destemidas. Levou o prêmio pelo melhor roteiro e interpretação feminina no festival de Cannes do mesmo ano e indicado ao Oscar de melhor atriz à Penélope Cruz em 2007. Neste trabalho, Almodóvar voltou o olhar para o passado, para sua infância e povoado, remontando sua trajetória de vida com um argumento sobre a morte que teve por moldura as histórias contadas pela sua mãe e irmãs. Volver é um filme que revela muito bem a “segunda fase” do diretor onde apresenta suas pessoalidades como forma de introspecção necessária à sua arte; nele traz novamente o universo feminino pela ampla possibilidade de discurso emocional que gera. O filme é um melodrama que exprime o sentido que o próprio título evoca: a volta ao passado. O feminino com sua força imensurável traduzido pela atmosfera melodramática e kitsch, que aparecem correlacionados com o neorrealismo italiano. Um filme que trata da solidão que se contrapõe à solidariedade; da fragilidade feminina que se contrapõe à força da beleza que encanta. Todo este argumento tem como pano de fundo o culto aos mortos e antepassados. A narrativa significa o retorno de fantasmas antigos que machucam a lembrança e a vida da personagem Raimunda (Penélope Cruz). E por esse prisma que o filme vai abordar temas ácidos: incesto, adultério, homicídio, sem deixar de nos dar esperança ao final, por isso não é um filme pessimista, antes muito pelo contrário. Após a morte do marido, Raimunda consegue refazer sua vida ao lado da filha Paula (Yohana Cobo), abre um restaurante clandestinamente, canta e encanta, mas ainda teme o passado tão presente. Por isso, o reencontro com Irene (Carmem Maura), a mãe morta e que todos julgavam estar enterrada numa pequena cidade da Mancha, torna-se o conflito central do filme, mas ao mesmo tempo é o caminho para sobreviver ao medo do passado, porque mãe e filha possuem segredos muito próximos, um já quase esquecido, e o outro escondido e literalmente congelado no freezer do restaurante. Volver é ainda o retorno de Almodóvar à sua terra natal, La Mancha, recriada com as cores de uma Espanha provinciana e folclórica que nos apaixona e encanta.



sexta-feira, 12 de março de 2010

Simplesmente raso.

Gosto de assistir filmes ainda que sejam ruins. Sempre guardo uma esperança, mesmo que remota, de que vou sair ganhando. Talvez o filme tenha uma boa música, uma fotografia bacana, um figurino que signifique mais, sei lá, eu tento.
Foi com este espírito que fui assistir "Simplesmente complicado" da diretora Nancy (esqueci), que já fez o conhecido "Alguém tem que ceder" e que me deixou irritadíssima na época.
Fui sobretudo pela chamada do filme: "Ex-marido e ex-mulher apaixonados". Num rompante de identificação e curiosidade, pensei que iria me divertir com a "comédia romântica".
Ledo engano.
O filme é a história de um casal de sessentões (aliás, muito bon como sempre) Alec Baldwin e Meryl Streep, que após anos de separação retomam um caso de amor.
Honestamente não entendo a diretora que, vale dizer, está na casa dos 60 anos e parece obsecada (para não dizer incomodada) com o tema do amor maduro.
A cena inicial onde os protagonistas se encontram numa festa é de uma afetação completamente dispensável. O velho clichê do corôa casado com uma super gata e que está infeliz, é de uma bobagem quase infantil. Como tá ultra, ultrapassado esta caracterização da mulher madura-segura e bem resolvida. Aliás, qualquer um que conviva com esta faixa etária sabe bem que as pessoas são o que são e que a maturidade não traz paz nenhuma, muito menos segurança e respostas.
As cenas da personagem Jane conversando com as amigas (corôas, lógico!) sobre o ridículo do ex com sua jovem esposa, é outro lugar comum pra lá de manjado.
O filme só fica divertido quando as personagem escapam à mesmice e fumam maconha num tom muito engraçado. Eu pelo menos ri.
Vou dizer uma coisa, minhas grandes amigas (talvez as melhores) estão entre os 50 e 60 anos e garanto que ne-nhu-ma delas se identificará com este besteirol sessão da tarde. Minhas amigas são tão imaturas, quanto lindas, tão inseguras, quanto sensuais, tão frágeis, quanto determindas, tão cheias de dúvidas, quanto inteligentes.
Este tipo de filme preconceituoso só reforça a necessidade de se rever alguns padrões sociais. Pra que esta bobagem para falar de amor? O amor é livre, não depende de identidade, cartão de crédito, celulite, nem rugas para acontecer.
Saí da sessão à meia-noite, no Shopping Frei Caneca, vi um casal gay apaixonado de mãos dadas , um cachorro boxer de meias (sapato, sei lá) e um dono solitário, uma velhinha fumando seu cigarro e um casal de jovens discutindo...
A vida podia ser simplesmente descomplicada.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Passado inglório.

Assistir os filmes do Tarantino nunca foi tarefa fácil pra mim. Lembro até hoje da primeira vez que vi Pulp Fiction, no apartamento que eu morava em Balneário Camboriú. Assisti eu e mais uns dez colegas malucos da faculdade. Tive que segurar a minha onda para não dar vexame, mas minha vontade, desde as primeiras cenas, foi de sair correndo daquela doidera toda, principalmente quando a turma batia palma e urrava de excitação com as cenas sanguinárias. Foi apartir daquele dia que criei a certeza que não gosto do gênero e que passaria o resto da vida assistindo melodramas e romances adocicados.
Acontece que ontem, tomada de muita coragem, resolvi 'rever meus conceitos' e arrastei meu marido para assistir Bastardos Inglórios, que foi lançado em outubro do ano passado aqui no Brasil.
Como quase todos sabem, os "Bastardos" são soldados judeus americanos que têm a missão de exterminar os oficiais nazistas na Segunda Guerra. Confesso que a sinopse do filme foi um grande chamariz para mim, ver os nazistas se dando mal é muito sedutor ...
Eu sabia que veria muito sangue, já estava preparada pras loucuras juvenis do diretor. O que eu não esperava era encontrar um Tarantino tão deliciosamente debochado, que mescla linguagens e divide gêneros com uma maestria impecável.
Para mim, pouco importa a crítica dos ditos entendidos, dos cinéfilos chatos e pedantes.
Amei, ou melhor, amamos o filme!! Fiquei tensa do princípio ao fim, não relaxei um segundo, em alguns momentos pensei que não ia suportar tanta piração, mas ainda assim, o filme é bárbaro. E, para meu espanto maior, praticamente esqueci de analisar o figurino.
Ver o Hitler ser alvejado por balas na cara foi impagável.
Talvez seja esta a única forma possível de se exorcizar um passado tão inglório como o dos judeus que foram dizimados numa história nada fictícia. O cinema tem dessas coisas de nos fazer sonhar e, por algumas horas, viver um outro mundo: o de seres e humanos.
Quentin Tarantino, valeu a tua arte!

sábado, 26 de setembro de 2009